HISTÓRIA

Com a bola no pé

Desde criança Catia já mostrava seu envolvimento com o esporte, brincando de pega-pega, esconde-esconde e claro, futebol, nas ruas de Cerqueira César, pequena cidade do interior de São Paulo. A Cátia nasceu com a bola de futebol no pé, sempre sonhou em ser jogadora (desde pequena), futebol é sua paixão.

O sonho de ser jogadora profissional só crescia a cada dia, seu pai então conseguiu um teste para ela no time feminino de Botucatu no ano de 2006. Catia não decepcionou e de quebra marcou dois gols em cima da equipe principal, sendo aceita no time. Por conta de seu sonho ela teve que abrir mão de algumas coisas, com 14 anos se viu obrigada a mudar de cidade e morar longe de sua família. O ano seguinte foi maravilhoso, o time de Catia foi campeão de todos os campeonatos que disputou. “Graças ao meu pai que consegui realizar meu sonho de jogar futebol”.

Catia conseguiu se destacar mais ainda no ano de 2007, chamando a atenção de treinadores de outros times e inclusive da seleção brasileira.

Um sonho interrompido

Porém um grave acidente mudou seu rumo. Aos 16 anos Catia dormia no banco de trás de um carro dirigido por uma colega de equipe, quando a motorista perdeu o controle e bateu na traseira de outro veículo, Catia foi lançada para frente e com o impacto sofreu um trauma na coluna e ficou tetraplégica. Quando ela estava na ambulância a caminho do hospital, seu técnico recebeu uma ligação da seleção brasileira avisando que a jogadora tinha sido convocada para disputar o Mundial sub-17.

O período de recuperação foi muito difícil, mais difícil ainda foi a aceitação das sequelas decorrentes do acidente, ela comenta: “Foi muito difícil, eu sou tetra, então quando eu estava no hospital ainda, eu só mexia os olhos, e eu não entendia, eu não tinha noção que eu podia quebrar a coluna, para mim eu ia sair do hospital e em um mês eu ia andar. Mas aí foi passando o tempo e eu cai na realidade.”

Depois de difíceis quatro meses tentando aceitar o acidente, Catia foi para o hospital da Rede Sarah Kubitschek (centro de reabilitação destinado ao atendimento de poli traumatismo e problemas locomotores) que mudou seus pensamentos e suas escolhas. “Após ver uma criança na cadeira de rodas feliz, sorridente e brincando consegui entender que Deus tem propósitos maiores, temos que agradecer por tudo que temos e não pelo que não temos, que nossas limitações estão apenas em nossas cabeças”.

A mudança e o tênis de mesa

Voltando para sua cidade natal, ela continuou fazendo fisioterapia e sempre sonhou em voltar a praticar um esporte, porém em uma cidade de apenas 20 mil habitantes não via isso possível. Em 2013 foi a uma feira (Reathec), e conseguiu ter acesso a diversos esportes paralímpicos, e atletas que na época eram da seleção, onde conheceu o tênis de mesa. Nele ela enxergou que poderia praticar o esporte pois não dependia de outro deficiente físico para pratica-lo. Após sua classificação funcional decidiu participar de umas das etapas da Copa do Brasil, onde sem treinos conquistou uma medalha reacendendo assim seu sonho de ser atleta novamente.

Com poucos recursos Catia conseguiu ajuda de uma escola de sua cidade (Cooperativa Educacional Cerqueirense) onde três vezes por semana ficava disponível a mesa de ping pong da escola para ela bater bola e “treinar” com o irmão, amigos e um dos inspetores de alunos. Um anjo de pessoa que vendo todo esforço da Catia doou uma mesa profissional para a atleta; onde a mesma colocou na sala de sua casa, só tinha a mesa nessa sala e os treinos diários aconteciam com o irmão, professor da academia Fisicon Rudson, amigos e outros que se habilitavam a ajudar. No final desse mesmo ano, no campeonato Brasileiro, Catia já mostrou sua aptidão para o esporte e com um bom desempenho a seleção Brasileira viu todo seu talento e ficou interessada pela atleta.

O sonho Olímpico

Com o sonho de representar o Brasil nas Paralimpíadas de 2016, Catia entendeu que precisava buscar novos caminhos para sua preparação, pois só assim conseguiria a classificação para os jogos do Rio 2016. O sonho falava mais alto, quando em 2014, através de uma pesquisa na internet, encontrou a Associação Nova Era de Tênis de Mesa de Bauru, um dos melhores centros de treinamento de tênis de mesa do país.
No primeiro semestre deste ano Catia dividia suas atividades trabalhando no período da manhã na secretaria da Prefeitura de Cerqueira César e três vezes por semana viajava até Bauru para treinar na escolinha da Nova Era. Foi o início de uma paixão com seu novo esporte.

Catia começou a jogar tênis de mesa no começo de 2013, e em menos de um ano já era cogitada para a seleção brasileira. Em 2014 ela participou de um campeonato na Costa Rica, onde de forma inesperada venceu a 9ª melhor jogadora do mundo, saltando da 22ª posição no ranking para 10ª melhor atleta de tênis de mesa na Classe 2. Após esta conquista, em menos de um ano de treinamento, veio a sua primeira convocação para integrar a seleção brasileira.

O sonho de representar o Brasil falava cada vez mais alto e após ser convidada pela Associação Nova Era para fazer parte de sua equipe de alto rendimento, decidiu deixar seu trabalho, família e amigos, e mudou-se para Bauru. Nesse período morava junto com os outros atletas e recebia ajuda de um de seus companheiros de equipe para os seus cuidados pessoais (Daniel Lira).

A melhor do Brasil

Em 2015 ela se mudou para Brasília, antiga sede de treinamento da seleção, e os frutos vieram, ela disputou os Jogos Parapan-americanos de Toronto, ganhando a medalha de ouro e garantindo vaga para disputar a Paralimpíadas. Em apenas três anos, Catia mostrou todo o seu talento para o esporte e foi eleita a melhor atleta do tênis de mesa brasileiro em 2015.

Após os jogos Parapan-americanos Catia descobriu uma lesão cirúrgica em seu ombro, um lesão que colocou em risco sua presença na tão sonhada Paralimpíadas do Rio de Janeiro. Em janeiro de 2016 passou por uma cirurgia e começou uma corrida contra o tempo para se recuperar. Ficou afastada das mesas por 8 meses e após um longo trabalho de fisioterapia e muita dedicação, Catia conseguiu participar dos jogos Paralímpicos Rio 2016.

O Futuro

Atualmente Catia é atleta da Associação Nova Era de Bauru e tem dedicação integral aos treinamentos, seus objetivos e seus sonhos são cada vez maiores. Para isso vive uma rotina intensa de treinamento, os treinos técnicos e táticos acontecem seis vezes por semana, de segunda a sábado, somado aos treinamentos físicos na academia três vezes por semana, tem acompanhamento psicológico duas vezes por mês e também faz aulas de inglês. Seu objetivo a longo prazo é ganhar uma medalha nas Paralimpíadas de 2020, e alcançar o topo do ranking mundial na Classe 2.

Focada e batalhadora, sabe onde quer chegar e luta diariamente para alcançar seus objetivos, é uma guerreira e um exemplo de vida. A cada dia se dedica mais ao seu sonho de ser campeã e número 1 do mundo.